‘Brasil 70 – A Saga do Tri’ revive glória histórica sem esquecer as sombras da ditadura

Recontar a trajetória da seleção brasileira de 1970 talvez pareça tarefa ingrata. Afinal, aquele time já foi eternizado à exaustão em imagens que atravessaram décadas. Ainda assim, Brasil 70 – A Saga do Tri, produção da Netflix em parceria com a o2 Filmes, que já está disponível na plataforma de streaming, encontra espaço para transformar uma história conhecida em uma minissérie vibrante, política e emocionalmente envolvente.
Em vez de apenas reverenciar o futebol arte daquela equipe, a produção entende que o tricampeonato mundial também aconteceu sob as sombras mais pesadas da ditadura militar brasileira. O resultado é uma superprodução que recria a Copa do México com energia cinematográfica, sem deixar que o brilho da taça apague os conflitos e tensões do período.
Grande parte dessa força vem do elenco. Rodrigo Santoro (Heleno) constrói um João Saldanha fácil de simpatizar, sempre acompanhado de um cigarro e de uma postura desafiadora que traduz perfeitamente a personalidade do treinador comunista que bateu de frente com o regime. Mesmo após deixar o comando da seleção, Saldanha continua presente como comentarista das partidas, funcionando quase como uma consciência crítica da narrativa.
Já Bruno Mazzeo (Cilada) entrega um Zagallo firme, obstinado e seguro de suas convicções, alguém que jamais desacredita daqueles jogadores e assume a responsabilidade de montar uma seleção improvável com cinco camisas 10. Enquanto isso, Lucas Agrícola impressiona pela semelhança física com Pelé, ajudando a tornar ainda mais crível a reconstrução do maior jogador de todos os tempos em um dos períodos mais delicados de sua carreira.
Inclusive, é nesse ponto que o roteiro acerta ao entender que, apesar de conhecermos o destino daquela seleção, ainda existe espaço para tensão dramática. A série constrói subtramas eficientes que ampliam o peso emocional da campanha, especialmente no caso de Pelé.
O camisa 10 chega ao México cercado de dúvidas e fantasmas pessoais. Em 1958, apesar do brilho absoluto na final, ainda era uma jovem revelação. Em 1962, lesionou-se cedo e viu Garrincha conduzir o Brasil ao bicampeonato. Já em 1966, sofreu violentamente com as faltas e saiu da Copa machucado e desacreditado. Por isso, o episódio intitulado “Eu Não Morri” ganha significado especial: é a frase que resume o alívio e a redenção de um atleta que finalmente consegue liderar sua equipe até o topo do mundo sem interrupções, lesões ou desconfianças.
Ao mesmo tempo, Brasil 70 – A Saga do Tri nunca abandona o contexto político que cercava aquela conquista. A série mostra militares monitorando Pelé durante a Copa devido ao medo de ameaças e sequestros por grupos guerrilheiros, enquanto o jogador lida com pedidos vindos diretamente do presidente Emílio Garrastazu Médici e conselhos constantes de colegas de time para não se posicionar politicamente.
Em um dos grandes momentos mais íntimos da série, o cantor Wilson Simonal — convidado para acompanhar a Seleção na concentração a fim de elevar os ânimos dos jogadores — conversa com Pelé sobre sobrevivência em tempos de repressão, alertando que era preciso “ter swing” para não acabar destruído pelo sistema. Paulo César Caju, uma espécie de 12º jogador daquele time, também surge como voz importante ao questionar Pelé sobre seu silêncio político e até suspeitar que sua saída do time titular pudesse ter motivações ideológicas. São momentos que ajudam a série a se engrandecer em seu contexto político.
As partidas refeitas merecem destaque especial. Mesmo existindo incontáveis registros originais da Copa de 70, a produção consegue justificar sua recriação graças ao enorme cuidado técnico empregado em cada sequência. O uso de efeitos visuais, montagem dinâmica, desenho de som e slow motion transforma lances históricos em momentos de puro espetáculo cinematográfico. A semifinal contra o Uruguai exemplifica bem isso, especialmente no instante em que Clodoaldo recoloca o Brasil no jogo. A série encontra maneiras de transmitir velocidade, impacto e emoção sem parecer mera cópia das transmissões antigas. Existe um claro capricho em tornar aquelas jogadas novamente grandiosas para um público acostumado a outra linguagem audiovisual.
Mas talvez o maior mérito da minissérie esteja em mostrar que a Copa de 70 não foi vivida apenas dentro das quatro linhas. Há espaço para o torcedor pessimista que acha que tudo dará errado, para aquele que evita assistir aos jogos por superstição e até para quem vende o que possui para viajar ao México atrás da seleção. Esses personagens ajudam a ampliar o alcance emocional da narrativa e reforçam como o tricampeonato foi absorvido de formas diferentes em um país marcado simultaneamente por euforia popular e repressão política.
Por fim, Brasil 70 – A Saga do Tri entende que o mito daquela equipe nasceu não apenas dos gols inesquecíveis, das jogadas mágicas de uma seleção que tinha cinco camisas 10 em campo, do toque de bola envolvente desses gênios da cancha, do gol em que Pelé voou ou do corredor livre para Carlos Alberto Torres fechar a goleada em cima da Itália na final, mas também das tensões invisíveis que aconteciam fora das quatro linhas e que mexiam com mais de 90 milhões de brasileiros.
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