Luci Gameiro
A era da pressa: obsessão ou doença?
Imediatismo que leva ao sofrimento
A era da pressa.
Enfim, conseguimos herói, transformar a pressa em uma obsessão que por fim virou doença. A doença do imediatismo ou vulgarmente apelidada de " cronopatia " (cronos=Deus do tempo cronológico e pathia ou patheia=sofrimento).
Tudo isso para descrever a nossa compulsão pelo tempo e a velocidade.
Nunca antes,levamos tão a sério o ditado popular de que tempo é dinheiro. Afinal, ninguém quer ou gosta de perder esse vil metal que comprará um lugar melhor na eternidade. Estamos trocando bens preciosos como, saborear um café coado fresquinho, ler um livro aleatório ou contemplar por instantes a natureza em seu ritmo sinusal.
Pior ainda, estamos deixando de querer ouvir, ver ou sentir o pulsar da vida, tudo em prol da produtividade compulsiva e desenfreada do rendimento.
Hoje, aceleramos descaradamente áudios, vídeos, conversas e relações, so para acabar logo e enfim sentarmos no sofá e queimar o tempo rolando nossas telas no celular. A aceleração social do pertencimento, daquele sentimento de que não podemos perder nada, tomou o lugar do prazer indescritível de se esperar uma carta escrita a mão, trazida pelo carteiro amigo.
Entre os malefícios do imediatismo,listo os menores para não causar neuroses. Ao acelerar o tempo, antecipando o que cabe ao futuro construir, observamos o aumento aterrorizante da ansiedade. Lideramos o ranking mundial dos países com a maior taxa de ansiosos. Sentimos que estamos perdendo tempo constantemente. Sempre atrasados, afobados e angustiados.
Há uma falta constante de concentração, levando a buscarmos laudos e medicamentos, quando na maioria das vezes é só uma questão de deslocamento de atenção. A dificuldade de se viver o presente fica por conta da necessidade de antecipar o que pode ser feito amanhã.
Por fim , o efeito impaciência de ser, uma imensa frustração com a lentidão dos processos e pessoas. Esperar o semáforo abrir é coisa de idiotas que tem tempo para perder não é mesmo?
O resultado de tudo isso meu caro Watson?
Além do exacerbamento da autossabotagem, do esgotamento físico, mental e espiritual e do autoabandono? A intolerância sísmica que nos joga na solidão. Você me dirá: - Também, não temos tempo pra mais nada! Mil quatrocentos e quarenta minutos diários são extremamente pouco diante de tudo que se há pra fazer.
Agora se tivéssemos mais tempo...ah tudo seria diferente, com certeza seríamos mais felizes. Tenho comigo todas as certezas do mundo de que, aumentar as horas não nos ajudaria em nada . Não fomos ensinados a gostar do pouco das coisas. Sonho de consumo de todos os pseudo estoicos.
Usaríamos esse tempo extra para navegar por águas turvas da banalidade social, comparando nossos egos adoecidos pelo narcisismo internetico. Ficaremos gravemente doentes mas, não desligaremos nosso deuses celulares duas horas antes para dormir tranquilamente. Perderemos horas sagradas de entrosamento e conexões, mas jamais ficaremos sem saber das últimas peripécias dos super influencers midiáticos.
Pra terminar, afinal time is money, faço cá uma pergunta:
Será que alguém terá tempo para ler esse texto?
Quem sabe?
Eu de qualquer modo decidi continuar contemplando essa incrível experiência que é, viver um dia de cada vez.

Luci Gameiro é palestrante e consultora comportamental

Luci Gameiro é palestrante e consultora comportamental




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