Luci Gameiro
Filhos e pais: a difícil arte de estar presente
Mais do que cobrar presença, talvez seja necessário reaprender a criar conexões verdadeiras entre pais e filhos
“Pais e Filhos nos anos 70” era o nome de uma revista especializada em orientar os pais sobre como cuidar de seus rebentos. Ali estavam opiniões de ilustres profissionais das áreas de educação, psicologia, nutrição, pediatria e tantas outras. Se você tivesse alguma dúvida, era só consultar um dos colunistas.
Mas, como nem tudo é simples assim, outros conflitos foram surgindo ao longo das décadas — e aquilo que já era difícil acabou se tornando ainda mais complexo.
Recentemente, uma pesquisa mostrou que os pais atuais estão menos presentes na vida de seus filhos. Os motivos são praticamente os mesmos: falta de tempo, alta demanda, múltiplas tarefas... e também a famosa preguiça.
Sim, preguiça. Nunca fomos tão preguiçosos em relação ao outro.
Platão, em “A República”, já refletia sobre a responsabilidade de gerar e educar filhos, defendendo que aqueles que não estivessem dispostos a assumir esse trabalho não deveriam fazê-lo. Mas Platão nunca teve filhos. Então, como saberia?
O fato é que cobrar os pais por mais uma negligência talvez não traga resultados satisfatórios. Isso apenas acrescenta mais culpa ao coração já atormentado desses seres humanos que se tornam pais.
A ausência sempre existiu e provavelmente continuará existindo. Basta olhar para trás e observar como a humanidade vem lidando, ao longo do tempo, com aquilo que realmente precisa ser feito.
Guerras, fome e tragédias
Gerações anteriores enfrentaram guerras, fome e tragédias naturais. Não havia tempo para muitas “mimices” ou para estar presente o tempo todo. Era preciso ganhar o pão que alimentava os pimpolhos. O resto, cada um buscava por si.
Foi assim durante muito tempo, até que inventamos a chamada educação positiva.
Há estudos que apontam que facilitar excessivamente a vida pode contribuir para tornar indivíduos menos preparados para lidar com dificuldades. Talvez seja necessário fazer apenas o que realmente nos cabe e permitir que o restante floresça por conta própria.
Quando cobramos mais presença dos pais, estamos falando de qualidade, e não necessariamente de quantidade.
Estar verdadeiramente conectado com os filhos exige atenção, disponibilidade e presença emocional. Não basta estar fisicamente no mesmo ambiente enquanto a cabeça está em outro lugar.
É necessário olhar nos olhos, tocar, ouvir e perceber o outro. Pequenos momentos de conexão podem ser suficientes para fortalecer vínculos importantes.
E aí vem novamente a tal da preguiça.
A falta de boa vontade. A desconsideração pelos sentimentos. Aprendemos que a ordem imposta pela força de vontade é muito mais rápida para produzir resultados. Basta querer.
Até funciona.
Mas nem sempre perdura.
É efêmero.
Se você sente que seu filho está distante, busque por ele. Traga-o para perto. Não tente comprá-lo com presentes ou compensá-lo com condescendência. Aprenda a escutá-lo.
Eu sempre achei que deveríamos ter também uma revista chamada “Filhos e Pais”.
Isso não resolveria o problema, mas talvez ajudasse essas criaturinhas em formação emocional a compreender melhor o mundo complexo dos pais.
E quem sabe assim não haveria tantas cobranças por pais perfeitos e filhos satisfeitos?
Uma publicação assim poderia ajudar os filhos a identificar situações de abuso, negligência e maus-tratos, além de mostrar como lidar com elas. Afinal, progenitores também são humanos. E, como todos os seres humanos, são falhos.
Não vejo necessariamente pais menos presentes.
Vejo seres humanos cada vez mais ausentes de suas próprias emoções, com medo de se aprofundar no outro. E, assim, vamos construindo uma sociedade superficial, carente e, muitas vezes, dolorosa.
Invista em pequenos momentos de conexão. Mas faça deles grandes mudanças de atitude.
Meu caro Watson, talvez o segredo esteja justamente aí.
Ensine seu filho a ser autônomo.
O melhor pai e a melhor mãe que podem existir são aqueles que, um dia, tornam-se desnecessários.
Para isso, faça o mínimo necessário — e deixe o restante florescer neles.





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