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São Paulo,28/10/2026

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Cyberbullying: quando a covardia se esconde atrás da tela


Cyberbullying: quando a covardia se esconde atrás da tela

Agressões físicas, verbais ou psicológicas, praticadas de forma repetitiva e intencional, com o objetivo de intimidar, humilhar ou ferir alguém, caracterizam o bullying. Mas existe uma modalidade que dispensa a presença física do agressor e, muitas vezes, permite que ele se esconda atrás de uma tela: o cyberbullying.

Seus efeitos podem ser devastadores. A velocidade de propagação das mensagens, o alcance das publicações e a falsa sensação de anonimato tornam essa prática especialmente perigosa.

Mas saiba, meu caro Watson, que desde 2024 o Brasil conta com uma legislação específica sobre o assunto. A Lei nº 14.811/2024 introduziu o bullying e o cyberbullying no Código Penal, estabelecendo sanções para essas condutas. No caso do cyberbullying, a pena prevista é de reclusão de dois a quatro anos e multa, se a conduta não constituir crime mais grave.

Espalhar boatos, compartilhar fotos ou vídeos para humilhar alguém, criar perfis falsos para perseguir pessoas, promover campanhas de difamação, produzir mentiras com o objetivo de constranger e estimular a violência ou a autodestruição são exemplos de comportamentos que podem causar danos profundos às vítimas e, conforme as circunstâncias, configurar crimes.

O que leva alguém a agir dessa maneira?

A questão nos remete a uma reflexão filosófica apresentada por Platão em A República, por meio da história do Anel de Giges. Na narrativa, o anel concede ao seu portador o poder de ficar invisível, levantando uma questão fundamental: como uma pessoa se comportaria se pudesse agir sem ser reconhecida ou responsabilizada?

Nas redes sociais, essa reflexão ganha uma dimensão preocupante. Protegidos por perfis falsos ou pela distância física, alguns indivíduos parecem acreditar que podem atacar, humilhar e perseguir sem consequências. Essa postura revela um preocupante desprezo pela dignidade alheia, embora não seja correto atribuir um diagnóstico psicológico a alguém apenas por esse comportamento.

No cyberbullying, diferentemente de muitas situações de bullying presencial, a violência acontece por meio de redes sociais, aplicativos de mensagens, jogos on-line e outras plataformas digitais. E há um agravante: uma publicação ofensiva pode ser replicada inúmeras vezes, alcançando pessoas muito além do círculo original da vítima.

O que me choca profundamente é perceber como essa prática pode conquistar simpatizantes. Afinal, o agressor nem sempre age sozinho. Há quem curta, compartilhe, comente com deboche ou incentive a perseguição. Há também quem assista a tudo em silêncio, como se a humilhação de outra pessoa fosse apenas uma forma de entretenimento.

É preciso compreender, entretanto, que a responsabilidade jurídica de cada participante depende de sua conduta concreta e das circunstâncias. Nem todo espectador será automaticamente responsabilizado criminalmente, mas quem contribui para a disseminação de ataques pode, conforme o caso, responder por seus próprios atos.

E não se engane, meu caro Watson: o cyberbullying não é um problema restrito a adolescentes. Ele pode ocorrer em diferentes faixas etárias, classes sociais, ambientes

profissionais e contextos culturais. A tecnologia muda, mas a intolerância e a disposição de ferir o outro podem continuar presentes.

E o que fazer diante dessa realidade? Se você está sendo vítima de cyberbullying, não enfrente essa situação sozinho. Procure pessoas de confiança, familiares, profissionais ou instituições que possam oferecer apoio.

Sempre que possível, preserve as provas: faça capturas de tela, guarde mensagens, links, datas, gravações e outras evidências relevantes. Evite apagar os registros antes de salvá-los. Denuncie o conteúdo às plataformas e procure as autoridades policiais para receber orientação sobre as providências cabíveis.


Também é importante buscar apoio emocional. Ser alvo de humilhações constantes pode abalar a autoestima, prejudicar os relacionamentos e comprometer a qualidade de vida. Pedir ajuda não é sinal de fraqueza: é uma atitude de proteção e coragem.

O silêncio imposto pelo medo pode favorecer a continuidade das agressões. Por isso, romper o isolamento e procurar ajuda são passos importantes para interromper esse ciclo.

A UNICEF e o Brasil Escola estão entre as fontes que oferecem conteúdos educativos e orientações sobre bullying e cyberbullying. Informação de qualidade também precisa circular — especialmente quando pode ajudar alguém a reconhecer a violência e buscar proteção.

Mas existe uma atitude que depende de cada um de nós: não transformar a dor alheia em espetáculo.

Quando alguém é humilhado e os demais riem, a brincadeira deixa de ser inocente. A crueldade pode se disfarçar de humor, mas isso não a torna aceitável. Não incentive, não compartilhe e não aplauda quem usa a internet para destruir a dignidade de outra pessoa.

Precisamos construir ambientes digitais nos quais o respeito prevaleça sobre a intolerância e a solidariedade seja mais forte do que a vontade de atacar.

final, meu caro Watson, há uma lição que não podemos esquecer: sem plateia, o espetáculo da crueldade perde força. E, quando nos recusamos a aplaudir a humilhação, ajudamos a interromper o show.



Luci Gameiro é palestrante e consultora comportamental




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