Gestão jurídica e IA
Que a utilização da IA virou obrigatória, não há mais dúvida. Não tem mais como olhar para o futuro, pensando em entregar um trabalho competitivo de alto valor agregado, sem aplicação destas ferramentas. Ela torna a entrega mais assertiva, rápida, de menor custo, permite escala, torna os profissionais mais criativos, engenhosos, uma vez que podem focar mais no que é mais estratégico e menos operacional.
Quem não adotar, não vai competir, vai ficar muito para trás em relação a quem aderiu, cumpriu a curva de aprendizado e incorporou de forma segura às suas operações e entregas de forma geral.
Ao longo dos últimos anos, talvez a maior barreira que temos encontrado na nossa consultoria são a cultural e a da falta da gestão correta para extrair o melhor do que as novas tecnologias e principalmente a IA estão aí para nos oferecer.
Quando a sede de implementar, muitas vezes agudizada pelo sentimento de FOMO, deixa sobrepor à estratégia ou à gestão correta da operação, o que vemos é pouco ou quase nenhum resultado real de agregação de valor.
A gestão vem de identificar os problemas, as oportunidades, alinhadas às estratégias do negócio e visão de médio e longo prazo. Aplicar as matrizes clássicas de gestão (SWOT, DISC, SIPOC, VOC, GUT, RACI, Eisenhower…), entrevistar os stakeholders, cumprir regulamentos e legislação, são premissas básicas de um fluxo de aplicação da IA alinhado e seguro que irá gerar os resultados desejados.
O que a correta gestão vai nos trazer principalmente é um foco de aplicação da IA alinhado ao que o negócio realmente precisa. Como as frentes e possibilidades são muitas, saber exatamente onde e como devemos aplicar primeiro a energia, para, a partir disso, seguir evoluindo, é fundamental para que os projetos de modernização não ganhem aquela característica de “sem fim”, ou de desmotivação de quem está à frente, pois, por ter sido mal idealizado, gerido ou dimensionado, não ficou claro o benefício, a importância, e como ele seguirá agregando valor a todos na trilha de evolução.
Observamos os escritórios de advocacia, principalmente os médios, em um nível de maturidade bastante inicial quando se fala de gestão e aplicação da IA. Os grandes, se organizando incorporando setores de Legal Operations específicos para tratar do tema, em linha de amadurecimento. Os Departamentos Jurídicos, com características bem diferentes de atuação, budget e tempo, e, por já terem mais maturidade em matéria de gestão, fazendo um caminho mais ponderado e consistente.
Nos escritórios, na prática, vemos como grande desafio primeiramente escapar das operações manuais, que demandam enorme esforço humano e são muito suscetíveis a erros e variações de análise. Uma vez que a operação ainda não segue uma esteira centralizada e padronizada para cada tipo de processo operacional, cada advogado ou paralegal adota seus critérios ou métodos de atuação, trazendo inconsistência e uma variabilidade de dados indecifráveis que limitam na origem o objetivo final, que é ter um a advocacia mais estratégica, verdadeiramente orientada por insights fornecidos pelos dados – “data driven”.
A grande massa de escritórios, principalmente os de contencioso, aplicam a metodologia tradicional de gestão, lançando mão da análise por amostragem, ficando uma boa parte dos dados sem análise ou bastante superficial. Assim, muitas oportunidades de melhoria e de levar dados preciosos e totalmente estratégicos aos clientes ficam de fora, e é o que eles cada vez mais esperam das bancas de advocacia, uma vez que o trabalho manual, operacional, vai sendo mais facilmente resolvido por meio das IAs e automações quando projetadas e implementadas de forma inteligente e tática.
A adoção de uma estrutura operacional Full Digital será cada vez mais essencial para que, de ponta a ponta da esteira operacional, soluções específicas sejam encapsuladas para trazer uma operação totalmente automatizada e estratégica à tona. Isto é, um ecossistema inteligente onde softwares e bases de dados se comunicam de forma autônoma, eliminando a intervenção humana em tarefas burocráticas e repetitivas.
É exatamente este o papel da IA, uma vez que ela é a solução robusta e escalável para esses desafios. Ela permite uma padronização rigorosa dos critérios de análise, o processamento de grandes volumes e a identificação de caminhos e soluções que são humanamente impossíveis.
Por exemplo, imaginemos que um tribunal publique uma decisão sobre um processo do escritório. Em uma arquitetura comum, o advogado teria que ler o site do tribunal, baixar o PDF, renomear o arquivo, salvar na pasta, avisar o cliente por e-mail ou sistema, escolher uma tese, elaborar uma peça, dentre outras várias tarefas e subtarefas relacionadas.
Num modelo Full Digital, um robô captura a publicação, salva o documento automaticamente no local correto com o nome padronizado, agenda o prazo no ERP em nome do advogado já com a sugestão da peça praticamente pronta, envia uma notificação automática ao cliente, solicita as providências, tudo em questão de segundos e sem nenhum clique manual, e ainda entrega em um BI avançado em tempo real o juiz, matéria, percentual daquele tipo de decisão, permitindo ao advogado somente pensar em como evitar aquele conflito ou problema, e conversar neste nível com o cliente.
É outra advocacia, baseada em integração, automação, eficiência e uma inteligência que só a artificial tem capacidade de nos prover quando sabemos como utilizá-la.
Portanto, muito mais do que uma ferramenta operacional, a IA transforma completamente a forma como a advocacia é exercida, permitindo uma atuação muito mais estruturada, decisiva, técnica, onde os dados apontam os caminhos e permite ao advogado pavimentá-los e percorrê-los com mais segurança e resultados concretos.
Este é o novo horizonte. Apesar da fase inicial em que tudo se encontra, colocar-se no rumo certo e se adaptar é o que vai tornar o tradicional mercado da advocacia em um dos mais disruptivos dos próximos anos.







COMENTÁRIOS